Pesquisas sobre bem-estar animal de SC recebem premiação de instituição britânica

13 de maio de 2021

Duas pesquisas do Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas foram selecionadas para receber o prêmio Animal Welfare Student Scholarship, da Federação de Universidades para o Bem-Estar Animal (UFAW). As duas pesquisas foram supervisionadas pelas professoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Med. Vet. Maria José Hötzel. e Me. Vet. Patrizia Ana Bricarello

O prêmio de £2.400 irá possibilitar a realização dos estudos propostos pela mestranda Bianca Vandresen e pelo doutorando Giuliano Pereira de Barros. Os estudantes apresentarão os resultados dos seus projetos de pesquisa no encontro anual dos bolsistas a UFAW. A UFAW é uma instituição de caridade sediada no Reino Unido que trabalha com a comunidade científica em todo o mundo para desenvolver e promover melhorias no bem-estar dos animais por meio de atividades científicas e educacionais. Com bolsas de estudo, a UFAW visa incentivar os alunos a desenvolverem seus interesses no bem-estar animal e fornecer-lhes a oportunidade de conduzir pesquisas relevantes ou outros projetos (por exemplo, educacionais).

Interação Humano/animal
O projeto de Bianca, Influence of human-animal interactions and cognitive bias on dairy heifers’ fear of humans (Influência de interações humano-animal e viés cognitivo no medo de novilhas à humanos), é realizado com a supervisão da professora Maria José Hötzel. Ele pretende compreender melhor como animais percebem e interpretam interações com humanos. “Na produção de leite os produtores interagem diariamente com as vacas, mas nós ainda não sabemos exatamente como as vacas percebem essas interações e como elas influenciam na relação humano-animal”, conta Bianca, integrante do Laboratório de Etologia Aplicada e Bem-Estar Animal (LETA).

A pesquisadora explica que irá investigar como a distância de fuga das vacas em relação a pessoas varia de acordo com a qualidade das interações humano-animal. “Vamos ter duas formas de interação ao longo do tempo: positiva - falar calmamente e manejá-las em silêncio, e aversiva - fazendo barulhos e falando alto”.
A ideia inicial é dividir os animais em dois grupos de doze; serão novilhas que ainda não foram ordenhadas para evitar influência nos resultados. Num deles, as interações serão positivas pelas primeiras duas semanas e, depois, a mesma pessoa muda para interações aversivas pelo mesmo período; o segundo grupo terá a ordem contrária, primeiro aversivo e depois positivo, pelo mesmo período de tempo. Os testes de distância de fuga serão feitos antes das interações começarem e no fim de cada tratamento.

Outro aspecto da pesquisa será apurar como o viés cognitivo dos animais pode influenciar nas percepções das interações humano-animal. “Animais como as vacas leiteiras têm traços individuais. Um desses traços se refere ao viés cognitivo, em que alguns animais se mostram mais ‘pessimistas’ e outros mais ‘otimistas’”, frisa Bianca. “Testes de viés cognitivo mostram que alguns eventos podem influenciar nisso, como após procedimentos dolorosos os animais se apresentam mais pessimistas quando apresentados a uma situação ambígua. Porém, outros estudos apontam que esses traços também podem ser características individuais do animal e que não se sabe ao certo como e porque se desenvolvem. No nosso estudo vamos investigar se, além da qualidade das interações humano-animal, essa característica de viés cognitivo também influencia em como as novilhas interpretam as relações com pessoas”, afirma a mestranda.

Os trabalhos serão desenvolvidos no Dairy Education and Research Centre da University of British Columbia (UBC), no Canadá. Bianca conta que a equipe de pesquisa em bem-estar animal da UBC tem parceria com o laboratório na UFSC. Ela irá viajar assim que seu visto for aprovado, o que deve ocorrer entre julho e agosto. No Canadá, Bianca irá passar por período de testes e quarentena, antes de ficar liberada para ir a campo.


Corte de caudas

A pesquisa de Giuliano, Do sheep tail docking decrease myiasis occurrence in sheep? A retrospective study (O corte da cauda diminui a ocorrência de miíase em ovelhas? Um estudo retrospectivo), tem a supervisão da professora Patrizia Ana Bricarello. O trabalho pretende responder se vale a pena mutilar ovelhas em nome de uma suposta promoção da saúde dos animais.

De acordo com Giuliano, a caudectomia (corte da cauda) é uma prática zootécnica fortemente inserida nas fazendas que criam ovelhas em todo o mundo. “Elas não têm cauda, só um toquinho, pela alegação de que isso evitaria juntar fezes e urina, que iria predispor os animais a terem infecções, especialmente miíase”, destaca o pesquisador, que é integrante do Núcleo de Agroecologia da Fazenda Experimental Ressacada. Miíase é uma doença provocada pela infestação de larvas de moscas, popularmente conhecida como bicheira.

O entendimento moderno de bem-estar animal, acrescenta Giuliano, revisita técnicas como castração, remoção de chifres e mutilação de orelhas de cachorros. “Estamos questionando se tem algum motivo para seguir fazendo isso e nesse rol de práticas está o corte da cauda de ovelhas”, pondera. O procedimento é realizado geralmente na primeira semana de vida do cordeiro, sem anestesia. “O corte com a lâmina ou faca é a frio; às vezes esquenta e cauteriza, em outras, coloca umas borrachinhas. Como o rabo é enervado, elas sentem muita dor. É bem difícil de ver, o animal fica chorando e não come por vários dias”, descreve.

O pesquisador comenta que ovelhas precisam do rabo para expressar seu comportamento natural. “O hábito de remover a cauda ficou porque antigamente a lã valia muito dinheiro; as ovelhas eram criadas basicamente para isso. Como a cauda é muito grande, fazia-se isso para que as sujidades não afetassem a lã. Hoje em dia com o poliéster, o preço da lã teve diminuição muito grande”, relata. Giuliano salienta que o mercado atual busca um produto diferenciado, preocupado com o bem-estar animal.

O projeto de Giuliano é um estudo epidemiológico retrospectivo do rebanho de ovinos da Fazenda Experimental da Ressacada da UFSC - hoje são pouco menos de 50, mas a média é de 60 a 70 animais. “Vamos analisar dados da incidência de doenças no rebanho durante sete anos. Os animais vivem ali há mais de oito anos, e diariamente, um médico veterinário anota o que acontece com eles”. Giuliano explica que alguns têm cauda e outros não: “Os que não têm foram comprados pela UFSC, vieram sem cauda. Os que nascem ali, a gente não remove”.
A pesquisa documental vai analisar todos os dados e fazer mapeamento da ocorrência da miíase, principal doença a se prevenir pelo corte da cauda dos ovinos, e verificar se os animais sem cauda têm efetivamente menor quantidade deste mal. Pelo tamanho da série de dados, o poder estatístico será muito grande, avalia Giuliano. “Se os que não têm cauda tiverem incidência igual, não tem por que submeter o animais a este sofrimento”, finaliza o pesquisador.

FONTE: Caetano Machado/Jornalista da Agecom/UFSC
FOTO: CCA/UFSC



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