Artigo: Outubro Rosa e a Medicina Veterinária

11 de outubro de 2021

Outubro chegou e com ele vem o famoso outubro rosa. Mas você sabe o real motivo desse movimento de conscientização para o controle do câncer de mama? O outubro rosa foi criado no início da década de 90 e tem sido difundido mundialmente com o intuito de alertar mulheres para o autoexame, recomendando o diagnóstico precoce além de instigar o acesso mais facilitado ao tratamento, reduzindo assim a taxa de mortalidade dessas mulheres e aumentando as chances de cura.

Com isso, nós da medicina veterinária também passamos a instruir tutores e transmitir informações úteis visando aumentar a expectativa de vida de cadelas e gatas que, infelizmente, também são acometidas pelo câncer de mama. Esse é um tema comum na rotina clínica e cirúrgica da medicina veterinária de pequenos animais, porém é um assunto muito polêmico, delicado e importante que gera muitas dúvidas tanto aos profissionais quanto aos tutores. Identificar a melhor conduta para cada paciente, realizar ou não mastectomias sejam elas radicais, uni ou bilaterais, possibilidade de remoção de um quadrante da cadeia mamária ou apenas a exérese de nódulo tumoral além de reconhecer a necessidade de remoção de linfonodos sentinelas em conjunto com a avaliação histopatológica são dúvidas que frequentemente diversos profissionais têm no momento do diagnóstico e condução do caso clínico.

Afinal de contas tratamos o paciente com um todo e não apenas o câncer e as doenças em geral. O principal objetivo será sempre aumentar a sobrevida desses animais, sem perder a qualidade de vida. Saber selecionar quais animais serão candidatos ao tratamento sistêmico com quimioterapia através do exame histopatológico, é essencial. É preciso salientar que nem todas as cadelas e gatas com diagnóstico de neoplasias mamárias malignas há necessidade de iniciar o tratamento quimioterápico. Temos que levar em consideração fatores como a graduação histológica tumoral, a origem e se há presença de metástase.

O relato sobre o aparecimento do tumor normalmente vem no momento da consulta ou muitas vezes é um achado do próprio médico-veterinário na circunstância do exame físico. É importante perguntar quanto tempo já existe essa formação ou quando foi percebido no intuito de orientar o tutor sobre quais exames deverão ser solicitados para poder fazer um correto estadiamento da doença. Com os resultados dos exames complementares, pode-se ter subsídios e segurança para tomar a decisão mais sensata e a escolha adequada para o tratamento deste paciente levando em consideração todas as comorbidades do mesmo.

Todos os animais diagnosticados e tratados devem ser acompanhados durante e posteriormente por um profissional capacitado. Só assim conseguiremos dar sequência e difundir a oncologia veterinária no Brasil, desmistificando as falsas crenças de que não é indicado operar um animal com câncer ou um animal idoso por exemplo, mas sim tratá-lo de maneira digna proporcionando uma sobrevida com qualidade, independente do protocolo que se inicie com cirurgia ou em conjunto com a quimioterapia. Faz-se necessário que nós, médicos-veterinários, não fiquemos restritos somente ao tratamento destes pacientes, mas sim realizar uma atuação de forma preventiva na sociedade buscando orientar os tutores sobre as atualizações na área para proporcionar o que há de melhor para nossos pacientes.


MITOS E VERDADES:

É verdade que para reduzir as chances de desenvolvimento de tumores mamários, é preconizado realizar a castração de cadelas e gatas após o primeiro cio (no caso entre o primeiro e o segundo cio).

É mito a necessidade dos animais terem pelo menos uma gestação ou amamentarem para evitar o surgimento de tumores de mama.

É verdade que o uso de progestágenos (anticoncepcionais) aumenta as chances de desenvolvimento de tumor de mama tanto em cadelas como em gatas.


ESTATÍSTICAS:

Os tumores de glândula mamária ainda são os tumores mais frequentes em cadelas da mesma forma que nas mulheres também. Estima-se que no Brasil a incidência de tumores malignos é bem maior do que nos Estados Unidos, possivelmente isso se deve à castração precoce onde lá é uma prática muito mais difundida do que no nosso país. É mais comum o surgimento de neoplasias mamárias em fêmeas de meia-idade a idosas, na faixa etária de 7 a 12 anos.

As neoplasias mamárias em gatas normalmente tem uma agressividade maior do que nas cadelas, sendo que a taxa de tumores malignos é de 80 a 93% e tem alto potencial metastático. Nas gatas é o terceiro tipo de neoplasia mais comum perdendo apenas para as neoplasias hematopoiéticas (linfomas) e os tumores de pele.

A obesidade também tem sido associada a um maior risco de desenvolvimento de neoplasias mamárias tanto em gatas como nas cadelas.

O tratamento na maioria das vezes consiste na cirurgia (mastectomia) com associação de uso de quimioterápicos visando aumentar a sobrevida do paciente, retardando o desenvolvimento de metástase em muitos casos.


INFORMAÇÕES IMPORTANTES:


Caso não haja intenção de procriar os animais o ideal é fazer a castração no tempo correto no intuito de diminuir as chances do desenvolvimento de tumores de mama e consequentemente a diminuição de incidência de infecções uterinas, que são muito comuns em fêmeas senis.

Ter o hábito de palpar os animais com um simples carinho na barriga feito pelo tutor com atenção já ajuda bastante na detecção de algo diferente no corpo do seu animal. Pergunte ao seu veterinário de confiança como fazer essa palpação, ele com certeza vai orientá-lo.

Jamais faça o uso de anticoncepcionais injetáveis. Sempre priorize a castração. Levar os animais com regularidade ao médico veterinário, para um correto exame físico e realização de check-up com exames complementares, pode evitar surpresas desagradáveis. A prevenção continua sendo a melhor opção.



MV. DANIELA PEREIRA DA ROSA - CRMV SC 5230
Pós-graduada em dermatologia e oncologia de pequenos animais, e atualmente fazendo um curso de aperfeiçoamento em cirurgia oncológica reconstrutiva em cães e gatos (UNESP - Jaboticabal).



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